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Transparência pública ou apenas um amontoado de números?

Existe uma diferença abismal entre disponibilizar dados para cumprir uma lei e realmente informar o cidadão. Diante disso, parei de reclamar e construí minha própria ferramenta.

Ilustração de um painel de dados públicos confuso, com números sem conexão

Quem me conhece sabe que um dos meus passatempos favoritos é "garimpar" portais de transparência do governo. Eu acredito que o dado é a unidade básica da verdade, mas o que encontro por aí, na maioria das vezes, me frustra. Existe uma diferença abismal entre disponibilizar dados para cumprir uma lei e realmente informar o cidadão.

Mesmo quando o Estado tenta, como no caso do painel da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o que vemos é uma falta de inteligência de dados gritante. São números jogados, sem conexão, que mais confundem do que explicam. Diante disso, decidi parar de reclamar e comecei a construir a minha própria ferramenta.

Cruzei os dados públicos de violência de 2023 a 2026 com os indicadores sociais do IBGE e da Fundação SEADE. O resultado é o Código 190, um site onde compilei tudo, inclusive o histórico de roubos de celulares desde 2017. A ideia era simples: permitir que qualquer pessoa pudesse mergulhar no mapa do estado e chegar até a sua própria rua para saber se o lugar onde mora é, de fato, seguro.

Mas o que os dados me mostraram foi um choque de realidade que vai contra muito do que ouvimos por aí.

Ao analisar os cruzamentos, percebi algo que pode incomodar muitos sociólogos: no estado de São Paulo, não existe uma relação direta entre falta de assistência social e criminalidade. Os números mostram que cidades com mais saúde ou educação não são necessariamente menos violentas. Da mesma forma, ser uma cidade mais pobre ou mais favelizada não a torna automaticamente mais perigosa.

Os dados do Código 190 sugerem que a violência que vivemos não é culpa do ambiente social, mas sim de um ambiente legal e jurídico que parece não dar conta do recado. É contraintuitivo, eu sei, mas os números não mentem: não adianta apenas melhorar os indicadores sociais se o sistema não punir quem comete o crime.

O que mais me dói é ver a ineficiência do Estado em enxergar o óbvio. No site, você pode ver que a cidade com maior índice de violência sexual em SP é a pequena Guarani d'Oeste, na região de São José do Rio Preto. É uma cidade minúscula, assim como Uru e Itaoca, que vêm logo em seguida no ranking. Como o governo, com toda a sua estrutura, não consegue identificar e resolver o problema em comunidades tão pequenas?

Falta inteligência, falta olhar para o dado com seriedade e agir com precisão. Convido vocês a conhecerem o projeto, a navegarem pelo mapa e a fazerem as suas próprias análises. Vou atualizar esses números periodicamente, porque acredito que o primeiro passo para mudar a realidade é enxergá-la como ela é, sem filtros.

Dê uma olhada em codigo190.greca.dev.br e me diga o que você encontra.

Tela do painel Código 190, com o mapa de calor da violência em São Paulo

Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.

Retrato de Aislan Greca

Cientista de dados, com origem em Relações Públicas. Ajudo organizações a decidir com dados: letramento e IA para quem não é técnico, inteligência com fontes públicas, e a gestão da mudança que faz isso durar.