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O caso Nubank: como um cartão roxo sem anuidade usou dados para virar o maior banco digital do Brasil

Todo mundo tem uma teoria sobre o Nubank: o app bonito, o roxinho na moda. A força real estava em dados que os bancos descartavam. Ele transformou esse lixo na moeda de inclusão de 131 milhões de clientes.

Ilustração de um cartão roxo cercado por pontos de dados e conexões

Todo mundo tem uma teoria sobre o Nubank: que venceu pelo aplicativo bonito ou pelo roxinho na moda. As duas explicam pouco. A força real estava em dados que os bancos descartavam: histórico de quem paga em dia, pontuação de quem indica um amigo. No Brasil de 2013, isso era lixo, e o Nubank transformou esse lixo na moeda de inclusão de 131 milhões de clientes. Hoje vale US$ 68 bilhões.

A aposta contra um mercado de 80%

Em meados de 2012, David Vélez chegou a São Paulo com MBA de Stanford e cargo de sócio da Sequoia Capital, recrutado por Douglas Leone, chefe da firma, para abrir o mercado brasileiro. O país tinha juros de cartão de 200% a 400% ao ano e cinco bancos com mais de 80% dos ativos. Cenário perfeito, com um problema: os investidores americanos não queriam apostar ali. "Você quer se posicionar do lado do mercado onde há escassez", diz Vélez. Nos Estados Unidos, alguém com o currículo dele seria commodity; na América Latina, não.

Quando a oportunidade evaporou, ele se recolheu à casa dos pais na Costa Rica para planejar o ataque. Amigos avisaram que o establishment bancário o bloquearia, ou pior. Ele trazia marcas de Medellín: saiu de um shopping minutos antes de uma bomba, teve um tio sequestrado, e aos 9 anos a família fugiu para a Costa Rica. Em 2013, fundou o Nubank em São Paulo com Cristina Junqueira, ex-diretora de cartões do Itaú, e Edward Wible, de Princeton. A semente: US$ 1 milhão de Leone e ex-colegas, mais US$ 1 milhão da Kaszek.

Em agosto de 2014, a rodada de US$ 15 milhões liderada pela Sequoia foi fechada com Vélez levando os papéis ao hospital para Cristina assinar, em trabalho de parto. No mês seguinte nasceu o produto: cartão de crédito sem anuidade, pedido pelo aplicativo, num país onde agências existiam em só 60% das cidades e um terço da população não tinha conta.

A execução: dados como moeda de inclusão

Sem licença bancária, começou pelo cartão com estratégia de convite: só entrava quem um cliente aprovado indicasse. Aí morava a inovação. Sem histórico de crédito, a empresa usou dados alternativos: a pontuação do amigo que indicou, a regularidade de quem pagava em dia. Aprovava cerca de 20% dos candidatos, com limites de até US$ 14, que cresciam com pagamentos em dia. Disciplina de risco, não benevolência.

O timing parecia péssimo: o Brasil mergulhou na recessão e, doze meses depois, mais de um milhão de pessoas se candidataram à lista de espera do cartão roxo. Em 2016, 1 milhão de cartões quase só por boca a boca; em dezembro, US$ 80 milhões liderados pela DST Global num ano em que as outras startups brasileiras juntas levantaram US$ 340 milhões. "Todos os bancos estão virando empresas de software", observou Wible.

Em maio de 2017, após decreto presidencial abrindo exceção ao capital estrangeiro, virou banco e lançou a conta gratuita. Receita de US$ 523 milhões em 2019, com prejuízo de US$ 78 milhões; US$ 963 milhões em 2020, com perdas de US$ 44 milhões. A pandemia acelerou tudo: agências fechadas, celular como porta de entrada. "As pessoas começaram a experimentar e perceberam que éramos uma opção melhor", resumiu Vélez à CNBC. "De repente, vimos gente de 60, 70, 80 anos usando banco pelo celular."

Os resultados e a fronteira americana

Em dezembro de 2021, o Nubank estreou na Bolsa de Nova York: 289 milhões de ações a US$ 9, levantando US$ 2,6 bilhões, com avaliação implícita de US$ 41,4 bilhões. No primeiro dia, alta de quase 15%, valor de mercado perto de US$ 50 bilhões. A Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, já tinha aportado US$ 500 milhões. Chegou à bolsa com 48 milhões de clientes; cerca de 5,1 milhões de brasileiros tiveram ali o primeiro cartão ou conta, com US$ 2 bilhões economizados em tarifas.

Em maio de 2024, cruzou 100 milhões de clientes. No fim de 2025, eram 131 milhões: 113 milhões no Brasil, 14 milhões no México, 4 milhões na Colômbia. O CFO Guilherme Lago diz que o Nubank adicionou mais clientes em 2025 que os cinco maiores bancos incumbentes juntos, virando a segunda maior instituição do país em usuários, atrás da Caixa. Lucro de US$ 2,872 bilhões em 2025, alta de 51%; receita recorde de US$ 4,857 bilhões no quarto trimestre; retorno sobre patrimônio de 33%. A inadimplência acima de 90 dias ficou em 6,6%, o preço de emprestar a quem sempre foi excluído do crédito.

O próximo capítulo é a fronteira americana. Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional de licença bancária federal nos Estados Unidos, obrigando a injetar capital até fevereiro de 2027 e abrir as portas até meados do ano. A aposta é nos latinos, 20% da população dos EUA, e no mais de 1 milhão de brasileiros, mexicanos e colombianos que já pediram serviços à empresa. É a lógica de 2013: entrar onde a concorrência ignora.

Lições para quem constrói modelos de dados

Dado descartado por um mercado é ativo para outro. O que os bancos ignoravam era o sinal de que o Nubank precisava para emprestar com risco controlado. Lixo para quem domina pode ser a moeda de quem quer entrar.

Dados alternativos exigem disciplina, não benevolência. Aprovar 20% e começar com US$ 14, subindo conforme o pagamento real: inclusão com modelo conservador que aprende com o cliente.

O dado só vale se fechar o loop com o produto. O scoring não adiantaria sem o cartão sem anuidade e a conta gratuita: dados vencem quando reduzem atrito real.

O tamanho não elimina o risco. A inadimplência de 6,6% e a aposta bilionária nos EUA mostram que o modelo segue sendo testado.

A história do Nubank mostra que dados não são um departamento da empresa: são a própria empresa. Quem enxerga valor onde os incumbentes veem ruído pode reescrever um mercado inteiro. E quem domina um mercado deveria prestar atenção no que descarta, porque alguém, em algum lugar, está transformando esse descarte em um cartão roxo.

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Fontes

Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.

Retrato de Aislan Greca

Cientista de dados, com origem em Relações Públicas. Ajudo organizações a decidir com dados: letramento e IA para quem não é técnico, inteligência com fontes públicas, e a gestão da mudança que faz isso durar.