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Como um marketplace fez dos dados o colateral para virar banco
O Mercado Libre avaliou crédito com uma régua que nenhum bureau consegue reproduzir: o comportamento de compra e venda dentro da própria plataforma. Dados transacionais viraram colateral no sentido literal.
Em 1999, numa garagem em Buenos Aires, um jovem que voltava da Califórnia montou uma mesa, um computador e uma aposta: levar para a América Latina o modelo de leilões online que tinha visto decolar nos Estados Unidos. O jovem se chamava Marcos Galperin, tinha passado pela Stanford, e o negócio registrado em agosto daquele ano se chamava Mercado Libre. Vinte e sete anos depois, a mesma empresa é o maior ecossistema de comércio e finanças digitais da América Latina, presente em 18 países, com 123 mil funcionários e receita anual de US$ 28,9 bilhões. A analogia mais próxima para um brasileiro: imagine a Amazon, o Nubank e os Correios funcionando dentro de um único aplicativo. O caminho até lá, porém, não foi feito de sorte. Foi feito de um ingrediente que quase ninguém enxergava: dados.
A desconfiança como ponto de partida
O primeiro problema do Mercado Libre não foi atrair gente, foi gerar confiança. Compradores pagavam e não recebiam; vendedores entregavam e não recebiam. Em 2003, a empresa criou uma solução interna chamada Mercado Pago, que segurava o dinheiro até a entrega ser confirmada. Aquele escudo contra a fraude virou, com o tempo, uma máquina financeira completa: conta digital, cartões de débito e crédito, investimentos, seguros, criptomoedas e até uma stablecoin própria, o Meli Dólar. Hoje, o Mercado Pago tem 88 milhões de usuários ativos por mês e é a 17ª marca financeira mais valiosa do mundo, segundo o ranking Kantar BrandZ de 2025.
Quando os dados viram colateral
O movimento decisivo aconteceu quando o Mercado Pago decidiu emprestar dinheiro. Bancos tradicionais avaliam quem pede crédito por histórico bancário, renda e garantias. O Mercado Libre avaliou com outra régua: o comportamento de compra e venda dentro da própria plataforma, processado por modelos próprios de machine learning. O resultado é um score que nenhum bureau de crédito consegue reproduzir, porque nenhum banco enxerga o que o marketplace enxerga: quantas vendas aquele lojista faz, em quais categorias, com que frequência, com que taxa de devolução. E há um detalhe mais engenhoso: quando o lojista pega o empréstimo, a cobrança sai direto do fluxo de vendas que passa pelo Mercado Pago. A garantia é o próprio negócio funcionando, e o risco despenca.
Os números do segundo trimestre de 2026 mostram a máquina rodando: carteira de crédito de US$ 16 bilhões, alta de 75% em um ano; ativos sob gestão de US$ 23 bilhões, alta de 68%; volume de pagamentos (TPV) de US$ 101 bilhões, alta de 56%; volume de vendas (GMV) de US$ 21,9 bilhões, alta de 44%; receita líquida de US$ 10,2 bilhões, alta de 50%; inadimplência de 15 a 90 dias em 7%, perto do menor nível histórico. Os dados transacionais viraram colateral no sentido mais literal.
A aposta em IA, com margem sob pressão
Agora, o mesmo movimento se repete na inteligência artificial. Cerca de 95% dos funcionários usam ferramentas de IA generativa; aproximadamente 30% do código que chega à produção é escrito com o uso de IA; agentes autônomos revisaram mais de 500 mil contribuições de código e migraram 9 mil serviços de plataforma em um ano. No segundo trimestre de 2026, as submissões de código cresceram 110%, as implantações 75%, com menos reversões. No atendimento, o assistente de vendedores é usado por lojistas responsáveis por quase metade do volume vendido, e mais da metade dos chamados do portal de ajuda é resolvida sem intervenção humana. Mas essa revolução tem preço: a margem operacional caiu de 12,2% para 6,7% em doze meses, e o lucro líquido recuou 11%, para US$ 466 milhões.
O colateral dos dados tem limite?
O caso é um sucesso em curso, mas com alertas que a própria empresa lista: margem comprimida pela corrida de investimentos, cartão de crédito ainda diluindo resultado enquanto amadurece, concorrência forte de Shein, Shopee e Amazon no Brasil e no México, e uma carteira de crédito que cresce 75% ao ano num cenário macro instável. A lição do Mercado Libre para a gestão orientada a dados é dupla. Primeiro: dados transacionais próprios são a matéria-prima mais valiosa da era da IA, porque geram vantagem que não se compra nem se copia. Segundo: essa vantagem só se sustenta com disciplina de risco, porque colateral de dados não cobre inadimplência. O marketplace fez dos dados um banco; o desafio agora é provar que o banco sobrevive ao próprio crescimento. Quando o dinheiro e a informação circulam na mesma plataforma, cada compra vira dado, cada dado vira score, cada score vira crédito e cada crédito vira receita. O efeito colateral é que quem opera nesse ciclo precisa lembrar, todo trimestre, que colateral nenhum substitui a confiança.

Fontes
- MercadoLibre (press release oficial, 05/08/2026): Q2 2026 financial results
- SEC EDGAR: MercadoLibre, Inc., Form 10-K ano fiscal 2025
- Wikipédia: MercadoLibre (fundação 1999, IPO 2007)
- Wikipédia: Mercado Pago (origem em 2003, ranking Kantar BrandZ 2025)
Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.