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O caso Americanas: quando a incerteza humana encontra a rigidez dos dados

Durante nove anos, ninguém fez a pergunta mais básica que um cientista de dados aprende no primeiro dia: esses dados estão classificados corretamente? A fraude não foi digital. Foi humana.

Ilustração de um balanço contábil rígido diante de um vulto humano incerto

Às dez da noite de uma quarta-feira de janeiro, quando a maioria dos brasileiros já tinha desligado o computador, um comunicado curto e quase seco saiu da Americanas. Em São Paulo a bolsa fechou. Mas em Nova York, onde o mercado ainda estava acordado, a primeira reação chegou em silêncio: o preço das ações da empresa, negociadas em forma de BDR, despencou antes mesmo que o sol nascesse no Brasil.

O texto dizia apenas que a companhia tinha encontrado "inconsistências contábeis" de vinte bilhões de reais. Palavra feia, técnica, elaborada por algum departamento jurídico. No fundo, porém, o que aquele eufemismo escondia era uma pergunta simples e brutal: onde foi parar o dinheiro?

A resposta, ou a falta dela, deflagrou a maior crise corporativa da história recente do país. Em poucos dias, a Americanas, empresa com quase um século de existência e quarenta e quatro mil funcionários, viria a pedir a maior recuperação judicial já vista no Brasil. Mas essa história não começa com números. Começa com pessoas.

O homem que chegou para consertar

Sérgio Rial tinha tudo para ser o herói dessa narrativa. Banqueiro de carreira, ex-presidente do Santander Brasil durante seis anos, escolhido pessoalmente por Ana Patricia Botín para comandar a operação mais rentável do grupo espanhol. Quando os acionistas da Americanas o chamaram para assumir o comando, o mercado respirou aliviado. As ações subiram mais de vinte por cento só com o anúncio. Rial representava exatamente aquilo que a companhia precisava: credibilidade, rigor, a reputação de alguém que não aceitava histórias enfeitadas.

Ele assumiu em 3 de janeiro de 2023. Nove dias depois, estava fora.

O que aconteceu entre uma segunda-feira e uma quarta-feira daquela semana deveria estar em todos os manuais de governança corporativa e, curiosamente, em todos os cursos de ciência de dados. Em 4 de janeiro, um diretor da área contábil bateu à porta de Rial com um relatório que não deveria existir. Duas semanas depois, outros dois diretores confirmaram o diagnóstico: a empresa devia a bancos vinte bilhões de reais que simplesmente não apareciam nos balanços.

A técnica usada para esconder essa dívida tinha um nome curioso, quase poético: risco sacado. Em linguagem de mercado, funcionava assim: a Americanas comprava mercadoria de seus fornecedores e, em vez de pagar diretamente, transferia essa obrigação para uma instituição financeira. O banco pagava o fornecedor; a Americanas pagaria o banco depois. Só que, no sistema contábil, essas operações eram registradas como simples "contas a pagar", dívidas comuns, corriqueiras, quase invisíveis, em vez de empréstimos bancários, o que teria obrigado a empresa a mostrar um endividamento muito maior.

Durante nove anos, essa classificação errada se repetiu, mês após mês, no ERP da companhia. Auditores passaram. Conselheiros assinaram. Investidores analisaram. E ninguém fez a pergunta mais básica que um cientista de dados aprende a fazer desde o primeiro dia: esses dados estão classificados corretamente?

O dia em que o mercado perdeu a linha

Amanheceu quinta-feira, doze de janeiro. Em São Paulo, na B3, o pregão começou com uma palavra que os operadores conhecem bem: leilão. Não o leilão de compra e venda normal. O leilão de defesa, aquele mecanismo que a bolsa aciona quando as ordens de venda são tão violentas que o sistema precisa de um respiro antes de mostrar o preço. A ação da Americanas caiu setenta e sete por cento antes do almoço. Foi a maior queda diária de uma empresa de capital aberto na B3 desde 2008.

Mas o mais interessante daquele dia não foi o número. Foi o comportamento. A Genial Investimentos, que recomendava compra da Americanas até a véspera, virou a chave para venda e cortou o preço-alvo de vinte e oito reais para nove reais e quarenta centavos. A XP Investimentos colocou a recomendação em revisão. O Itaú BBA fez o mesmo. Não era uma análise racional, metódica, baseada em novos dados. Era o medo de um mercado que, de repente, percebeu que não entendia a empresa em que tinha confiado.

A renúncia de Rial naquela mesma manhã só piorou tudo. Aqui estava um homem que havia demitido a si mesmo por não conseguir consertar o que não criou, e o mercado puniu a empresa ainda mais por isso. Era um fenômeno quase irracional: quanto mais a empresa tentava mostrar transparência, mais o preço caía. A confiança, uma vez perdida, não obedece a modelos matemáticos. Ela obedece a emoções, a narrativas, a percepções.

O resultado foi previsível, e ninguém precisava de algoritmo para entender: um varejista sem a confiança de fornecedores, bancos e investidores não é um varejista. É um prédio vazio com pessoas trabalhando dentro. Em dezenove de janeiro, menos de vinte dias depois da chegada de Rial, a Americanas pediu recuperação judicial. A dívida total: quarenta e três bilhões de reais.

O insight que nenhum algoritmo teria encontrado

Quando um cientista de dados olha para esse caso, a tentação inicial é técnica: falha de classificação, erro de schema, data quality problem. E está certo, até certo ponto. Mas a história real está em outro lugar. Está na pergunta que ninguém fez por nove anos. Está na cultura de uma empresa onde executivos de alto escalão tinham incentivo para manter o resultado bonito, e onde o controle interno, aquela camada de gente que deveria justamente perguntar por que, foi anestesiado pelo tempo e pela conveniência.

Miguel Gutierrez e Anna Christina Saicali, dois dos executivos apontados como artífices da fraude, não hackearam um sistema. Eles usaram um sistema. O ERP fazia exatamente o que eles pediam. Os auditores revisavam exatamente o que era apresentado. Os bancos emprestavam com base em demonstrações que, formalmente, estavam corretas. A fraude não foi digital. Foi humana. Foi feita de omissões, de e-mails que não foram enviados, de atas que não registraram objeções, de silêncios constrangidos em salas de reunião.

Isso é o que separa a análise de dados da análise de risco de verdade. Dados são registros do comportamento humano. Quando os humanos decidem não registrar algo, o dado mais importante é aquele que não existe. Nenhum algoritmo detecta a ausência de uma pergunta. Nenhum modelo de machine learning prevê omissão cultural. Detectar isso exige outro tipo de inteligência: a capacidade de ler contextos, de entender incentivos, de perceber quando um comportamento organizacional se afastou da curva, não por erro estatístico, mas por decisão coletiva.

A Americanas não morreu por falta de tecnologia. Morreu por falta de coragem para discordar. Morreu porque, durante nove anos, em algum lugar da cadeia de comando, alguém decidiu que era mais fácil aceitar o número bonito do que questionar a história desconfortável por trás dele.

Uma lição que não está em nenhum dataset

Para quem trabalha com dados, o caso Americanas deixa um legado que não cabe em tabelas. Ele mostra que governança de dados não é um problema de TI. É um problema de comportamento. Que a integridade de um balanço depende menos do software que o produz e mais da cultura da empresa que o alimenta. Que o risco mais perigoso não é o outlier estatístico; é o outlier humano, o executivo que, por algum motivo, parou de relatar o que via.

Em dezembro de 2024, após quase dois anos de negociações, o plano de recuperação judicial da Americanas foi aprovado pelos credores. A empresa sobrevive, mas transformada. Novos controles, nova governança, uma estrutura financeira enxugada. O que não volta é a ingenuidade de quem acreditava que números auditados são garantia de verdade.

Fontes

  • CVM RAD - Portal de Consulta de Documentos de Companhias Abertas (fatos relevantes da Americanas S.A., CNPJ 00.776.574/0006-16)
  • Documento CVM 1149799 - Fato Relevante, Americanas S.A., 11/01/2023
  • Documento CVM 1149800 - Fato Relevante, Americanas S.A., 12/01/2023
  • Documento CVM 1150034 - Fato Relevante, Americanas S.A., 19/01/2023
  • CNJ - Recuperação Judicial Americana S.A. (1ª Vara Empresarial do RJ, RJE n. 2000874-35.2023.8.19.0001)
  • G1, Americanas: entenda a fraude contábil que levou à maior recuperação judicial do Brasil
  • CNN Brasil, 2 anos de fraude na Americanas: relembre caso que marcou história corporativa do país

Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.

Retrato de Aislan Greca

Cientista de dados, com origem em Relações Públicas. Ajudo organizações a decidir com dados: letramento e IA para quem não é técnico, inteligência com fontes públicas, e a gestão da mudança que faz isso durar.